Solidão 15:33

Sol, pôr-do-sol, lua, sol. Ela é esquelética e escurece o teto do quarto.

Um poema concreto 04:16




Três minicontos 12:53

1. Porque em certa tarde desenhou um corpo, na altura do coração, sobre o pulmão comprimido

2. Negação da infância negada pela inexistência do vocábulo não acarreta crime violento

3. Solidão conjunta

Leia estes três minicontos em:
http://www.escritorassuicidas.com.br/edicao34_5.htm#simonesantana34

Amor de guardar chuvas 16:32

Sempre guardara chuvas. Todas as chuvas na lagoa de sua memória. Nunca escoavam as águas que ali pingavam, ora forte de ventania, ora suave de brisa morna. Elas ali, quase sempre paradas, muito raro se revolviam, apenas muito se juntavam densas e pesadas. Sobre suas mãos, seu peito, sobre seus ombros, castigando-a, a chuva acumulada que não escoava. Muito se zangara ao sentir os primeiros pingos das chuvas ácidas contaminando a suavidade doce das chuvas de outra hora, hora passada. A zanga se dissolveu entre elas deixando ainda gosto de impotência entre as águas. Muito mais densas ficaram pela recusa desse guardar frio transparente claro de chuvas inesperadas, ou chuviscas frias de inverno escuro, verão claro. Sobre seus ombros, seu pescoço tão fino, delgado, suportando tanta chuva. Elas que vinham de norte, sul, leste, oeste. Todas as direções se voltavam para ela, que, entretanto, gostava, mesmo cheia e com reserva, de guardar águas. Inútil resistir. Essas chuvas vinham de todas as direções impelidas pela dolorosa necessidade de se sentir amada. Por fim a chegada dos tempos secos. Alegria em sua chegada. Pudera! Já transbordava! Porém, que restava fazer se já não havia chuvas a guardar? Nas margens da lagoa densa e escura seu espírito passeava. O tempo seco castigava seu corpo. Ele se contorcia com dores. Sem chuva a guardar ele se atrofiava. O espaço transparecia ao seu redor sem seus braços que encurtavam, sua cabeça adentrando para o pescoço, as costas adentrando o quadril. Anã curvada de peso de chuva, águas doces, águas ácidas, água pura, água podre, doente, odiada, amada. Doloroso o guardar chuvas, doloroso o guardar nada. Das margens da lagoa seu espírito pouco via. A densidade da água escondia tudo. A saudade da primeira chuva a atraiu às profundezas, que se fecharam sobre ela. Voltou ao início das águas, já não era nada. Era tudo. Secou com ela. E voltou molhando os cabelos de uma menina que passava.

Mestre kan Sey e sua sabedoria milenar 15:24

Chutemos o balde.

Do reino da Carochinha 03:47

Havia uma menina que catava aflições em jornais e esperanças em papelões. Nestes, ela reciclava estrelas que lhes pousavam escondidas durante a noite, e enfeitavam as paredes de zinco, seu dossel de caixote, sua cama de plástico. Havia essa menina e havia nela, menina, muitos sonhos, catados aqui e acolá, que aprendera em frente à TV que via na loja de eletrodomésticos, nos livros velhos que encontrava, nas luzes vivas que a fitavam. De pés descalços menina. Sem ter que ter, sem ter que vestir e comer. Sonhava com sapatinhos, um vestidinho, com uma rendinha só, um bordadinho, o tecido podendo ser de chita. Essa menina sonhava. O Sonho se compadeceu dela e sonhou dia e noite sem parar até virar realidade. Desceu um homenzinho muitas léguas e subiu outras tantas até o reino da Carrocinha onde a menina catava aflições em jornais e esperanças em papelões. Comprou seus pés descalços por duas centenas de notas reais lá do reino da Carochinha, e, puxando-a pela mãozinha, subiu léguas, desceu algumas, e chegou até onde os pés se confortam. Fez-lhe festa, na menina. O homem grande, a mulher grande, o menino, outra menina. Que tinha que lavar, passar, cozinhar, sem provar. Em troca um sapatinho, um vestidinho com um bordadinho, sendo o tecido de chita. A menina já não catava papelões em que fazia estrelas, jornais em que colhia angústias. O senhor Sonho, de bom ou mal, foi fenecendo. Cabelinhos brancos, já nem suspiro à noite. Soninho pesado de dar dó. Boquinha aberta. A menina dos olhos verdes, que tudo via, se enraiveceu do Sonho, e o acordou com um safanão. Fez de novo sonhar a menina, mesmo que ela já não fizesse questão. Sonhou então o senhor Sonho no cerebrinho dela e ela cogitou na idéia de uma casa grande, espaçosa, onde pudesse gozar seu vestidinho, seu sapatinho. Bateu na porta uma mulher cheirosa, em um dia de chuva e a convidou consigo levando. Em troca a menina teria que ser muito carinhosa. Tanto carinho dava e recebia que a menina já não se dava conta de que crescia, e de que já não era menina. Era só flor murchando dia-a-dia sufocada de tanto cheiro estranho, apertos de noite e de dia. A menina dos olhos verdes se enraiveceu novamente, resgatou o sonho que fugia. A menina moça florinha desceu léguas, subiu algumas, e chegou sozinha ao reino da Carrocinha, onde voltou a colher angústias em jornais e esperanças em papelões, dia, noite, noite, dia.

Jururu 08:32

Nas bocas dos medos entradas túneis
Que se fazem ao sol de meio-dia
O perfil da moça tão absurdamente romano
Dói os olhos de quem passa por ela
Nas vitrines recém lavadas enfeitadas com vestimentas de mil cores
Feitios e dores de quem as cobiça
Negros, carapinhas, mamelucos os preços brancos
Jorram papeizinhos nas calçadas que rolam ao sabor daquela
Que brisa!
Visita de janeiro antecipando águas de março
Os dedos sobre as máquinas calculadoras
Juros de comida, juros dos juros, juros de Maria que lava a roupa
Não tem!
Com uma máquina desmancharia o perfil dessa moça
O nariz principalmente.

Dois Microcontos 12:49
Suíte Correnteza 06:05

"Vento açoitando os eucaliptos. Solidão rasgando as distâncias, abrindo caminho para as chuvas. Todas as tristezas volitam em seu peito, procurando abrigo na quentura de suas veias. Um arrepio... Tudo fica tão claro que machuca seus nervos. A dor se acomoda, e volta. Vai e vem constante. A chuva violenta o vácuo, o capim, fazendo as vacas mugirem de agonia. Vendo a chuva através da janela aberta, Augusta relembra o tempo, sentindo sob os dedos as rugas que ele lhe imprimira. Estava só. Nem sempre estivera. Antes se via em outro rosto, em outros gestos. Agora só ela ali. Talvez se não estivesse naquele lugarzinho escondido não se sentiria tão sozinha... Poderia se enganar, fingir felicidade, mas sabe que sua felicidade já se foi, e que nunca mais voltará. Antes de o galo rasgar a manhã com seu cocoricó estridente de macho, ela se levantava e construía o lar. Dava vida ao fogão. Dava sentido às panelas. Dava graça às flores. E tudo era tão banal que ele não percebia a importância que ela tinha. Fazia tudo..."
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Dois poemas 11:41
A casa rosa 19:16

O que poderia ter sido se dissolveu no que haveria de ser, e Ana sorriu desejando o infinito. Abriu a janela, fez uma corda com os lençóis que achou no armário, e desceu pelas paredes na lua nova, brincando de estrela cadente no cinza de seu solar. Escorregou levemente, deslizando em câmera lenta, ante os olhos ansiosos, balas perdidas no eco, que a observavam da casa feliz. Veio fada desprendendo claridade, estrela d’alva, alva e cálida, ondulando sobre a relva de verão. Subiu pela encosta, o monte de duas direções, subida e descida, o que poderia ter sido para trás. Fragrância de rosa, rosa branca, subiu pelas paredes da casa rosa, pelas cortinas de renda do seu porvir. Pegou-o em seus braços, braços frágeis, magros, deitou-se ao seu lado e cheirou seus cabelos recém-lavados. Depositou beijos em sua pele quente e humana, arte de magia mesmo, ser ela de carne e osso, ali transfigurada, metamorfoseada em energia, cósmica? Braço frágil carregando seu corpo másculo, flor frágil se queimando em seu abraço. Duas Anas. Ana volta, desce a encosta, a lua que a guiava já se solta, e o sol aparece já, no infinito horizonte. Lança seus raios sobre seu corpo que responde, com um gemido de dor. A aurora apaga sua luminosidade, a transforma em uma massa morena, humana. Bate em seus olhos, castigando-a, trazendo-a para o mundo. De fora os sons vêm. Invadem sem cerimônia o quarto. Na parede nenhum retrato que mostre que ela fora feliz. O que poderia ser volta a ser o que poderia ter sido. Ana se aproxima da janela e vê o infinito. No seu quintal a casa rosa, fria e distante.

Prós Perene Daddy 16:29

Era uma vez um homem. Esse homem possuía uma esposa e muitos filhos. E muito gado. E todas as coisas que queria.
Era uma vez uma mulher. Essa mulher possuía um marido e muitos filhos. E muitas jóias que colecionava. E todas as coisas que queria.
Era uma vez muitos filhos. Esses filhos possuíam pais. Muitos bens. E todas as coisas que queriam.
Era uma vez muito gado, muita jóia, muitos bens. E muitas coisas que queriam.
Era uma vez muitas coisas, e nenhuma alegria.

Dois microcontos 12:59
Borboletas 07:54

As borboletas
Asas nuas
Navegam na poeticidade do momento
Vaga marulha
Na floresta sem água salgada
Apenas uma ponte sobre o pequeno rio
Das minhas saudades

Filhos do sol Nascente 12:33

Hiroshi e Ono se plantaram, onde o sol mais nascia, lá na terra do sol nascente, e juraram amor eterno. Quando, em plena primavera, ela partiu para a terra distante, ele prometeu encontrá-la. Hiroshi lançou então, na terra alagada, as pequeninas sementes de arroz, enquanto Ono, no longe, paciente, esperava, e cantava. As sementes não germinaram, e Hiroshi não pôde cruzar os oceanos, lhe ofertar festa, nem amor. Hiroshi envergonhou-se, e lançou-se no abismo. Ele inteiro. Hiroshi sempre queria o muito dar. Até a vida. Ono, fértil, morreu, aos poucos, nos braços de um gaijin, que muito arroz colhia, e mais semeava, mas que nada dela ceifava.

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O pote, oco de tudo 15:48

"Seu destino era o casebre no alto da colina azul, que todos conheciam por rosa, e descobrir o segredo que a velha guardava em um pote, que todos pensavam ser uma enorme laranja. Saiu com essa missão gravada no fundo do peito, patuá no pescoço, pé de coelho no bolso, uma figa nos tornozelos, uma bolsa cheia de bolachas, um rádio velho que funcionava a pilhas, e a manta que a cobria desde bebê nas noites frias. Ninguém a encarregara de tal propósito, ele nascera da visão do quadro que via ao acordar, de sua janela, ao longe, no topo da colina..."

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Paradoxos 07:02

Ela apareceu em uma manhã de inverno trazendo todas as dores do mundo nos olhos. Não é muito cedo pra chorar? Sempre a perguntaram. Crescera nas manhãs geladas, mas havia sois ambulantes sempre sorrindo. Escondia-se nos pântanos a derramar o que tinha de mais precioso, as pérolas brancas e doloridas. Vestia seus gestos mais amplos e belos, e, mesmo que belos e amplos, seu balé nunca foi aceito pelos sóis de fevereiro, o que a fazia constantemente procurar os ursos polares, onde esconder as pérolas. Seus baús já transbordavam de tanto mistério. Todas as pérolas escondidas ali, nunca lidas ou acariciadas. Ninguém para interpretá-las. Não existia nas manhãs salgadas e frias. Os ursos, com quem as dividia, às vezes, na ânsia de guardá-las, as feriam com suas rudes patas. Desistiu de caçar o abrigo dos raios solares na imensidão do mar perfeito quente e laranja. Temia morrer, como as mariposas que rodeiam as lâmpadas. Decidiu abrigar-se definitivamente junto aos ursos, naquela brancura que não cobra nada. Nem ais de prazer, nem gritos de agonia. Só, ali com os ursos e suas duras patas, produzindo pérolas brancas. Deglutindo a solidão, sentindo e compreendendo as criaturas geladas, assim, o que ela era, descobria pouco a pouco. No princípio, tímidas, depois longas meditações junto às baleias cheias de sabedoria que ali atracavam. Bailava ali, serena, plena e bela. Domando os ursos com sua dança branca e óbvia. Vagando um dia com seu arco, que sempre carregava, encontrou uma embarcação abandonada. E, oh, não, existia um sol ali sangrando laranja pelas pálpebras semicerradas! Era um Deus que ali chegava? Á sombra branca que não existia, pois era a própria brancura sem sombra, sem nada? Quem era ela para tocar a armadura bela? Tingir seus dedos do laranja sem pudor, quem era ela? Na eterna manhã não existia quem abrisse os olhos do sol, a não ser ela. Com sua mão gelada e seu olhar carregado de pérola. As pérolas brancas cheias de saudade de bailar como mariposa ao redor do sol. Decidiu arriscar na manhã dolorosamente bela. Bela porque poderia ela, pálida, sem cor, sem nada, tocar a criatura ardente? Como mariposa, negou a razão e aproximou seus lábios dos lábios da doce fera. Renovou a vida que já se extinguia. Quando o sol abriu os olhos, receosa escondeu-se atrás de um bloco de gelo. Os raios insistiam em alcançá-la. Dia, noite, dia. Quem a criatura que lhe reavivara a alma? Ali ficou fazendo verão no gelo, derretendo as geleiras. Temendo provocar uma inundação na cidade, decidiu ir embora. Os olhos dela, vertendo pérolas... Observa o sol que queria brilhar sobre ela, derreter o gelo que trouxera de não se sabe onde, que a fazia esconder-se nos pântanos, que a fizera se isolar ali entre os ursos. O sol indo embora... Decidir agora, como agora, se sempre estivera mergulhada em angustiosa espera? E se caso a devorasse com seu fogo, sem deixar que mostrasse seus gestos, a dança que ensaiara naquelas longas meditações junto às baleias azuis? Mas ele precisava dela! Ela, gelada, vertendo pérola! Não, ele não poderia ir embora. Lançou, sem mais espera, uma flecha que se cravou em sua perna. Caiu sentindo o veneno da seta. Era a única forma de expressar seu amor pela criatura quente e brilhante. Machucar seu sol significava prendê-lo a ela. Ouvir seus gemidos de dor nos dias sempre brancos e frios. Obrigá-lo a presenciar seu balé mudo. O sol compreendeu a flecha assim como compreendia as pérolas. As caixas amontoadas na caverna. Que bom ficar nem que fosse para curar a perna, para sarar o inverno que de repente chegara. Às vezes sentia falta do frescor que bate no inverno. Sentia falta do outono, quem sabe não seria primavera. Seus lábios sugando os raios de sua perna. Resplandece. Seus raios fazem um raio x e se acomodam em seu corpo. Provoca uma revolução. Derrete o gelo. Cola os lábios em seus lábios e baila com ela as palavras nunca ditas. Engole a saliva fria, fazendo-a engolir sua força quente e bruta. Atravessa seu corpo, enchendo-a de luz. E ela baila ali para ele. Seus movimentos já não são claros, pálidos ou óbvios. Contorce-se e escreve no ar arcos complexos. Seu corpo agora dourado incomoda os ursos. Foge com o sol para a terra dos sois ambulantes sempre sorrindo. Os sóis, que nunca a leram ali, estão observando com olhos cobiçosos. Seus raios gritam as esperanças perdidas. Seu sol não é o suficiente, não pode fazer com que ela seja compreendida. Começa a verter pérolas brancas novamente. Esconder-se no pântano, depois procurar a companhia dos ursos. Os ursos já não a querem mais. Entre os beijos do sol e as patadas frias dos ursos, as pérolas aumentam, começa a se sufocar mesmo que seja dia. A brancura da neve não a acalma mais. Não é mais sol, não é estrela, nunca será lua. Sente ser seu dever não provocar mais angústia. Faz um mergulho perfeito quebrando o gelo do pólo norte, escondendo-se para sempre na brancura gelada e muda. O sol, em vão, procura, derretendo a superfície fria...